quinta-feira, 29 de setembro de 2011

SALMO 133

Salmo é uma composição poética em que as palavras e as idéias têm ritmo. São mais conhecidas as composições religiosas, entoadas como hinos de exaltação à fé. Os antigos hebreus usavam cantá-los nas cerimônias, acompanhados de instrumentos musicais de cordas ou sopro.



                        O Antigo Testamento imortalizou 150 dessas composições, escritos por diversos autores, entre eles destacando-se o Rei Davi, que viveu, provavelmente entre 1015 a 975 a.C.

                        O Saltério abriga Salmos de quatro categorias literárias: Salmos de Louvor, de Ação de Graças, de Lamentação e Súplica e Salmos Sapienciais. Entre esses últimos, encontra-se o Salmo 133, objeto deste trabalho.

                        Há dois critérios para a distinção de um salmo sapiencial: o estilístico e o temático. É sapiencial o salmo que induz à reflexão, que traz preceitos, comparações e ilustrações tomadas da natureza, perguntas retóricas e advertências. Já os critérios temáticos caracterizam-se pelo estudo das Leis divinas como fonte de bênção e felicidade; a meditação dos mistérios da fé, a confiança pessoal em Deus, o valor da Justiça como sinônimo de vida espiritual e, sobretudo, o homem justo como modelo de imitação e a antítese entre justos e ímpios.

                        A tradução dos salmos para o português e outros idiomas modernos apresenta muitas vezes divergências entre o texto original e, não raramente, divergências entre uma tradução e outra no mesmo idioma. Até mesmo a numeração dos salmos pode apresentar divergências entre as várias versões impressas da Bíblia. Todavia, o sentido almejado pelos autores é mantido em todas as versões e os Salmos mantém seu valor sugestivo e inspiratório, de fácil e profunda ressonância na alma humana e cristã, tão necessitada de converter em oração sua conturbada experiência no mundo atual.

                        O Salmo 133 não escapou dessas divergências. Em algumas versões, ele nos é apresentado como 132. Suas palavras sofrem pequenas alterações semânticas, como “viver” e “habitar” em união e outras diferenças que não são o objeto deste estudo. Isto porque o Rito Escocês Antigo e Aceito, para colocar um fim na polêmica, adotou uma versão única, sob o número 133, e reproduziu suas palavras no Livro do Ritual do Aprendiz Maçom:



“Oh! Quão bom e quão suave é que os irmãos vivam em união!”.

É como o óleo precioso sobre a cabeça, que desce sobre a barba,

a barba de Arão, e que desce à orla de suas vestes;

 como o orvalho de Hermom, que desce sobre os montes de Sião;

 porque ali o Senhor ordena a benção e a vida para sempre.”“.


           De sua simples leitura, destacamos suas características de salmo sapiencial. No estilo, destacam-se duas comparações: viver em união é comparável ao óleo precioso sobre a cabeça de Arão e é também comparável ao orvalho de Hermom. O próprio orvalho bíblico é comparado com a benção divina e a vida eterna.

                        No aspecto temático, percebemos que o homem justo e fraterno receberá a retribuição divina, na forma de benção e vida para sempre.

                        Dissemos no início deste trabalho que nos salmos as palavras e as idéias têm ritmo e, neste aspecto, o Salmo 133 se revela um salmo clássico. As idéias nele contidas dão voltas, fechando o círculo como uma idéia que valsa durante a leitura. O óleo precioso desce sobre a barba e desce à orla das vestes de Arão. O orvalho desce sobre os montes de Sião e tudo se compara à união entre irmãos e recebe, como retribuição, a benção divina e a vida para sempre.

                        Apesar de breve, o Salmo 133 é riquíssimo em referências bíblicas. Apenas Arão, o irmão do patriarca Moisés, tinha acesso ao Senhor perante a Arca da Aliança. “Mandarás fazer vestes litúrgicas para teu irmão Arão, em sinal de honra e distinção”, diz o Senhor em Êxodo, 28. Para prostrar-se diante do Senhor, Arão deveria estar ungido por um óleo precioso. “O Senhor falou a Moisés, dizendo:” “Pega aromas de primeira qualidade: cinco quilos de mirra virgem, dois quilos e meio de cinamomo aromático, dois quilos de meio de cana aromática, cinco quilos de cássia, segundo o peso do santuário, e nove quilos de azeite de olivas. Farás disto um óleo para a unção sagrada.” Êxodo, 30.

                        Grande era a alegria de Arão de untar-se do óleo precioso, elaborado segundo receita prescrita pelo próprio Senhor. Diz o analista bíblico que Arão se ungia sem parcimônia, deixando que o óleo precioso escorresse pelas barbas e chegasse às orlas de suas vestes, transparecendo a alegria de comparecer diante do Senhor.

                        Outra referência histórica é o orvalho de Hermom. Os hebreus censuravam Moisés, diante da fome e agruras da caminhada no deserto. “Quem dera que tivéssemos morrido pela mão do Senhor do Egito, quando sentávamos junto às panelas de carne e comíamos pão com fartura! Trouxestes-nos ao deserto para matar de fome toda esta gente”. Êxodo, 16.

                        Eram dias críticos, em que os hebreus passavam por forte provação. Já haviam caminhado 75 dias, sem reservas suficientes para alimentar toda aquela massa de fiéis. Foi então que o Senhor falou a Moisés: “Eu ouvi as reclamações dos israelitas. Dizei-lhes: Ao anoitecer comereis carne, e amanhã cedo vos fartareis de pão. Assim sabereis que eu sou o Senhor vosso Deus”.Como haveria meios de prover pão a toda aquela gente? A ação divina cuidaria disso. “Pela manhã formou-se uma camada de orvalho ao redor do acampamento. Quando o orvalho evaporou, na superfície do deserto apareceram pequenos flocos, como cristais de gelo sobre a terra. Ao verem, os israelitas perguntavam-se uns aos outros:” “Que é isto?”, pois não sabiam o que era.”Êxodo, 16”.

                        O orvalho de Hermom, de que nos fala o Salmo 133 era o maná divino, que alimentou os israelitas durante toda a caminhada descrita no Livro do Êxodo. Era a retribuição de Deus àqueles que lhe devotavam fé.

                        Assim se fecham as idéias do Salmo 133, rico em comparações sapienciais. Não temos o desafio da caminhada no deserto rumo à terra prometida, como o tiveram os israelitas. Enfrentamos o desafio diário da violência, da ira, da descrença. Para vencê-los, precisamos tão somente da união, da vida em fraternidade entre irmãos. Praticar a fraternidade é como receber o maná divino em todas as manhãs, é como ungir-se do óleo precioso. A lição do Salmo 133 assim se resume: praticar a fraternidade é estar preparado para comparecer diante do Senhor e a retribuição será a benção de Deus e a vida eterna.                   

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